18/08/2026
Ah, Angelina...
Talvez um dia você descubra que a sua história começou a cruzar a minha muito antes de você existir.
Ao longo da vida, foram tantas pessoas, tantas casas, tantas famílias e tantas histórias... e é curioso perceber como certos fios vão se encontrando sem que a gente tenha a menor ideia de onde eles vão chegar.
E agora chegaram até você.
Talvez seja por isso que continuo criando: porque existe alguma coisa em mim que insiste em olhar para a frente, imaginar o que ainda não existe e permanecer curiosa diante do que ainda está por vir.
Já não sei contabilizar quantos quartos de bebê projetei. Com certeza passam de uma centena. Foram tantas crianças, tantas famílias, tantas histórias...
Mas aprendi uma coisa: os melhores projetos não são necessariamente os maiores, os mais caros ou os mais fotografados.
Os melhores são aqueles que me permitem entrar um pouquinho no coração de alguém.
E o seu foi assim.
Esta cartinha está exposta aqui nas redes e, portanto, muitos outros olhos irão lê-la. Mas ela foi escrita para você.
E, se outras pessoas chegarem até estas palavras, gostaria que encontrassem nelas uma lembrança simples, mas que para mim se tornou cada vez mais importante:
ainda existe sentido em criar verdadeiramente para alguém, e não apenas para mostrar ao mundo.
Quando comecei, meus projetos nasciam da régua, do papel e da caneta nanquim. Hoje trabalho com imagens e inteligência artificial. Amanhã, quem sabe, estarei criando espaços através de holografias ou de alguma tecnologia que hoje sequer consigo imaginar.
Não sei onde todo esse desenvolvimento vai chegar.
E isso não me assusta.
Ao contrário. Quero continuar aprendendo até o fim. Quero continuar curiosa diante do que ainda não sei fazer, porque as ferramentas certamente continuarão mudando, e eu espero continuar mudando com elas.
Mas existe uma coisa que eu não gostaria que mudasse nunca.
Por trás de cada desenho, de cada nova tecnologia e de cada imagem quase perfeita, precisa continuar existindo alguém.
Um nome.
Uma história.
Uma família.
Uma pessoa para quem aquilo foi pensado.
Porque podemos ter a tecnologia mais avançada do mundo, mas é o significado que colocamos no que fazemos que transforma um projeto em algo que realmente pertence a alguém.
E às vezes eu me pergunto: em um mundo cada vez mais rápido, tecnológico, comercial e preocupado em mostrar, ainda haverá espaço para aquilo que fazemos com afeto, simplesmente porque alguém é especial para nós?
Eu acredito que sim.
Aliás, talvez seja justamente esse o desafio do futuro: aprender a usar tudo o que ele nos oferecer sem permitir que a tecnologia retire de nós aquilo que nenhuma ferramenta consegue substituir:
a intenção, a sensibilidade, a memória, o vínculo.
Porque eu saí da caneta nanquim e cheguei à inteligência artificial.
Amanhã, não faço ideia do que estarei usando.
Mas quero que uma coisa permaneça igual: quando eu terminar um projeto, quero continuar sabendo para quem eu o fiz.
Por isso, Angelina, não importa se o seu quarto nasceu entre desenhos, computadores, imagens e inteligência artificial.
Antes de tudo isso, ele nasceu de uma história.
Da história da sua família.
E, agora, do começo da sua.
Outros olhos verão as imagens, outras pessoas lerão esta carta, mas isso pouco importa.
Porque, entre tantas coisas que já criei ao longo da vida, esta foi pensada para uma pessoa muito específica.
Foi para você, doce Angelina...