30/04/2026
É um baú grande. De madeira escura e pesado. Pesado como sao geralmente, os baús. Na antiga casa onde morava, uma casa grande, espaçosa, com terraço, varanda, jardins circundando a casa, ele ocupava o lugar do centro da sala de estar, uma sala ampla e iluminada, sempre de portas abertas para receber os amigos com sorrisos, abraços, um cafezinho com bolo, biscoito e uma boa prosa. No apartamento em que mora atualmente, o baú foi relegado ao quarto dos guardados, ao quarto onde tudo está á espera de um dia ser usado. Há seis anos não abre o baú. Nem lembra exatamente o que tem guardado nesse tesouro de memórias. Olha meio indecisa, com um pouco de ansiedade, um pouco de medo. Medo do que pode ter guardado há tanto tempo e há tanto tempo meio esquecido pelos dias que transcorrem tão vertiginosamente. Abre finalmente o baú. Fotos nos braços da mãe, sua mãe com cara de brava e ela chorando muito. Talvez com uns três, quatro anos de idade. Foto de seus pais, muito jovens e bonitos. Pode-se perceber pelos olhares que estavam apaixonados. Foto com sua irmã, tão linda, quatro anos mais nova. A irmã, também chorando, porque nunca gostou de tirar fotos. Foto de um dia na praia. Foi sem dúvida alguma, o dia mais feliz de sua infância até os oito anos. Um piquenique coletivo com os vizinhos da rua. Foram passar um dia na praia, com direito á comidinhas, sanduíches, refrigerante, pirulito e picolés de morango, daqueles que deixam a boca cor de rosa de tanto corante. Fotos com amigos, com o primeiro namorado que não foi seu grande amor. Seu grande amor foi o segundo namorado, pai de suas filhas. Foto das filhas em várias fases da vida. Alguns rabiscos. Escritos guardados, meio amarelados pelo tempo. A foto que gosta mais de si mesma, é uma foto oficial do colégio, pois todo ano a escola no início do ano letivo, tirava uma foto das alunas individual e coletivamente. Nunca conseguia tirar a foto séria, como a ocasião exigia. Sempre sorrindo. Sempre levava uma bronca das freiras porque a foto não era condizente com a importância do momento. Não ligava. Continuava sorrindo, como sorriu e sorri até hoje, quando lhe dá vontade, quando a alma pede. Foto de seu pai, o único jornalista a entrevistar o então presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek, quando veio á Paraíba, na cidade de João Pessoa. No baú, também estão declarações de amor de suas filhas escritas no dia das mães, assim como desenhos, que guardou como quem guarda obras de Van Gogh. No baú, também tem documentos. Certidão de nascimento, de casamento, certidão de batizado das filhas, diplomas, certidão de óbitos da mãe, do pai. Uma antiga carteira de identidade da mãe, aos 35 anos. Tão linda, sua mãe. Fotos do seu segundo marido. Seu amor da maturidade. Sempre na praia, os dois, como se a vida transcorresse num eterno verão, com ventos amenos. Santinhos de primeira comunhão. Fotos, muitas fotos, porque é de um tempo que tirar fotos e revelá-las é inevitável. Enquadramos esses momentos eternizando-os, talvez para que nossos futuros descendentes sejam testemunhas da nossa existência. Percebe, que, apesar de tantas recordações e objetos guardados nesse baú ancestral, pois ele foi de sua avó, o verdadeiro baú são suas memórias, suas lembranças que como tatuagem estão grafadas em seu coração, em seus olhos. E sorri. Sorri como sorria aquela menina no tempo de colégio se rebelando á ordem dada pelas freiras. Talvez porque sorrir seja seu ato de rebeldia e liberdade. Por isso, traz consigo até hoje, um sorriso teimoso de quem sabe que viver, apesar dos percalços, das dores e das perdas, é bela. E sorrir, pode ser revolucionário.
Alessandra Chianca
30/04/2026