25/10/2021
Este não é um post sobre arquitetura. Ele não vai falar sobre a Betty-arquiteta. Este é um post sobre amor, sobre saudades. Ele vai falar sobre a Betty-mãe. É uma singela homenagem, com palavras finitas e limitadas, para expressar o inefável.
Mamãe era alegre, de chamar atenção, segura de sua personalidade e de suas escolhas de vida, como uma boa leonina. Como seus clientes sabem, com ela, era 8 ou 80. Mamãe não ligava se a gente nadasse logo depois de comer e nem queria que a gente dormisse cedo - só era importante não estar acima do peso, afinal, o gosto pela estética era forte. Estudava matemática e português mas não com a mesma paciência que nos ensinou a desenhar árvores. Vibrava pelas nossas conquistas, especialmente pelas profissionais. Adorava nos ver falar inglês com fluência ou discursar em público. Sua paixão por viajar nos contaminou - sem parar para almoçar ou tomar banho, afinal, era preciso conhecer todas as obras arquitetônicas locais. A beleza da natureza não a cativava. Não era uma pessoa de por do sol ou das ondas do mar. Era pelas linhas tracejadas cuidadosamente pelo homem que se apaixonava. Adorava seus óculos escuros e a coleção de sapatos de salto. E, claro, suas calças jeans apertadas e, marca registrada, as jaquetas de couro. A noite, não era de televisão - gostava de adormecer lendo um livro pra acordar bem depois do nascer do sol.
Durante a vida, se fez sozinha - com os percalços, dificuldades e louros que isso traz. Comemoramos seus incontáveis prêmios, e a vimos perder o sono quando as coisas não estavam bem. No final, foi vitoriosa: seu nome é um dos maiores da arquitetura no Brasil. Recentemente encontrou uma nova felicidade ao se tornar avó e se encantar pelo neto e todos os feitos que um bebê de 5 meses consegue fazer.
Tinha muito ainda a realizar. Muitas viagens, muitos projetos, muito tempo a ser passado conosco. Deixou-nos prematuramente. Sem explicação, de repente. Mas deixa também um legado, que continua vivo dentro de nós e em cada uma de suas obras. Temos muito orgulho de sermos seus filhos, sua continuação, sua herança. Só podemos agradecer pelo privilégio de termos tido você como mãe.
Fe (gatinha) e Ma (Mazi)