30/06/2020
Finders Keepers...
Ok? Ok. Quando havia honra nacional
Nos 30 e 40, com o mundo a deixar-se envolver por graves tensões diplomáticas e, logo a seguir, por uma nova guerra mundial, o rearmamento das forças armadas passou a ocupar posição de destaque nas preocupações do governo. O Ministério da Guerra, ocupado de 1936 a 1944 pelo também chefe do governo Oliveira Salazar, desenvolveu ambicioso programa de reapetrechamento das armadas, exércitos e forças aéreas de Portugal. O agravamento dos problemas internacionais e o início da guerra, em 1939, dificultaram, contudo, a tarefa de aquisição de armamentos no estrangeiro, pois passou a ser canalizada para consumo interno a produção da fornecedora tradicional de Lisboa: a Inglaterra.
Portugal aligeirou o problema de modo muito seu: desenrascou. Em Dezembro de 1942, com efeito, o desembarque aliado no norte de África revelar-se-ia uma fonte inesperada de meios para as forças aéreas nacionais. Vindos de Marrocos, perdidos devido a uma tempestade, penetraram o espaço aéreo de Portugal dois grupos de caça norte-americana: o 81º e o 350º. Os pilotos, sem combustível, foram vivamente aconselhados a aterrar em solo nacional. Sem modo de resistir à sugestão portuguesa, os americanos acataram-na. Ao todo, eram 19, dos quais 17 caças P-39 Airacobra. Quando desceram dos céus, foram recebidos por soldados portugueses armados.
Os aviões foram prontamente confiscados pelo Estado português, acto que a disparidade de forças entre Portugal e os Estados Unidos não poderia fazer antever. Mas Lisboa agia com segurança, e a expropriação dos aparelhos pelo Estado português deu-se sem demasiado estrondo. A Aeronáutica Militar - a antecessora da actual Força Aérea Portuguesa - agradeceu vivamente a oferta involuntária; os novos P-39 foram postos ao serviço na causa da defesa nacional. Aos 17 tomados naquele dia, juntar-se-iam outros dois capturados, também, aos Aliados. Um deles parece ter chegado a Portugal em 1943, forçado a aterrar em Portugal por falta de combustível. É de crer que o caça fizesse parte da escolta que a Royal Air Force britânica fazia a Winston Churchill, que seguia para a Conferência de Casablanca, em Marrocos. Juntamente com os outros, foram organizados na Esquadrilha Mista de Caça N.º 4. Respondiam, o que oferece prova de fina ironia portuguesa, pelas letras de identificação "OK". Mas, se se aproveitou da situação, Portugal não roubou os aparelhos. De facto, Lisboa exigiu pagar a quantia módica de 20 000 dólares por avião. Os Estados Unidos registaram como uma "gentileza" essa insistência, assim como o bom tratamento dispensado por Portugal aos aviadores cá´chegados.
Tudo visto, um bom negócio para Portugal.
RPB