02/11/2026
Era uma vez uma aldeia branca, de ruas estreitas e janelas azuis, onde as pessoas acreditavam que o amor nunca morre, apenas muda de morada.
Na aldeia, todos os anos, ao chegar novembro, as portas do céu abriam-se de mansinho e o vento trazia cheiros de pão doce, flores e saudade. Chamavam-lhe o Dia dos Mortos mas ninguém chorava. Pelo contrário, o povo sorria, polia retratos, acendia velas e falava com os seus antepassados.
As Rositas, meninas feitas de sonho e de massinhas coloridas, vestiam-se de luz. Vestiam-se com saias compridas, rodadas e levavam, nos corações, bordados de esperança. Dançavam por entre os altares das igrejas e contavam, às velas treluzentes, histórias de amor antigo. E nas mãos seguravam flores de cempasúchil, cor de laranjas, quentes, vivas, para guiarem os passos das almas que as visitavam.
Naquela noite, os sinos da aldeia tocavam devagar. E contava-se que, se escutassem com atenção, ouviam risos antigos, passos esquecidos e o bater de asas dos que voltavam só por um instante para matar saudades.
“Eles vêm para nos lembrar que a morte é apenas uma troca de morada. Que a casa muda, mas o amor fica.”, diziam.
E, enquanto a lua se debruçava sobre os telhados, as Rositas punham as mãos sobre o peito e sentiam uma ternura antiga, porque naquele dia, o véu entre os mundos era tão fino, tão transparente, que bastava uma prece, um perfume, um falar baixinho, para os mortos sorrirem.
Aguinalda Conduto - Autora